terça-feira, 17 de abril de 2007

O Assassinato de Clarice

Ela caminhou pelos insólitos corredores com firmeza. Estava decidida a dar fim àquele sofrimento todo. Não ouviu ninguém. Sabia que Clarice estava sozinha. Como um algoz cruel e de sangue frio, caminhou lentamente até a cozinha. Foi perambulando seus pensamentos por tudo que Clarice havia lhe feito passar. Não queria mais sofrer e só enxergava uma solução. Mataria Clarice naquela noite.
Entrou na cozinha com passos leves. O chão de azulejos pardos parecia combinar com o velho armário de lata. Não queria fazer barulho. Tentou silenciar sua própria respiração, para que nada a denunciasse. Parou, respirou pensamentos amargos acerca de Clarice. Lembrou de quando ela a fez sofrer pela primeira vez, na escola. Clarice a afastou de seus amigos, fez com que aquele menino por quem ela era apaixonada risse dela. Clarice. Clarice! Ela era a responsável pela infância cruel que viveu, presa pelos pais até que eles se foram, cada um para um lado da cidade. Talvez ela tivesse sido uma garota normal, não fosse por Clarice. Clarice tem que morrer.
Expirou. Olhou para a gaveta da pia. Ainda que tivesse hesitado, de mãos meio trêmulas, mesmo assim, abriu a gaveta. Olhou a lâmina que faria Clarice sangrar. Tentou hesitar novamente, mas o sangue quente e a impulsividade lhe deram firmeza para pegar a faca. Puxou-a contra o peito, como se ela lhe pertencesse. Como se fizesse parte dela. Olhou para o escuro do outro lado da janela. Sorriu. Voltou-se para o corredor de foi à caça de sua presa. Esta noite libertaria-se de Clarice.
Sorrateira e cada vez mais envolta em sua decisão, ela caminhou até o quarto. Abriu calmamente a porta e, durante aqueles poucos segundos, lembrou de como se importou quando Clarice quase morrera queimada por si mesma. Achava-se uma idiota por isso. Clarice a fizera sofrer, despertando sentimentos que ela não queria, trazendo pensamentos sobre amores passados, sobre sua vida incompreensível e fora de centro. Clarice havia feito dela mulher, é verdade. Mas uma mulher que sofre. E ela estava farta disso. Tudo que ela queria, quando avistou Clarice de costas, sentada em sua escrivaninha, era terminar com aquilo para sempre.
Ela aproximou-se, em quase perfeito silêncio. Ergueu a faca, o braço, o mais alto que pode, preparando-se para o golpe fatal, com seus olhos repletos de imagens confusas de Clarice interferindo em sua vida. No trabalho, na família e, sobretudo, em seus relacionamentos amorosos. Chega de sofrer. É hora de Clarice morrer!
Pôs a mão sobre o ombro de Clarice. Queria ver o rosto dela antes que a matasse. Na verdade, queria que ela lhe olhasse nos olhos e visse a dor e o sofrimento que havia por trás deles. Tudo graças a ela. Por um breve momento, pensou se não estava errada, se Clarice não havia lhe mostrado uma nova maneira de ver a vida, menos comum, mais substancial. Mas não teve tempo de refletir, o ódio era maior. Aquela era a hora.
Puxou Clarice para si e então o terror lhe veio à face. Não podia ser, mas era. Viu-se ali, sentada, olhando para si mesma. Clarice era ela e ela não sabia mais quem era. Clarice, assustada, levantou-se. Ambas se olhavam, absortas numa confusão mental. Quem era Clarice? As duas? Nenhuma? Ela então preferiu negar o que sentia e o que ouvia por dentro. Ela não poderia ser Clarice, nunca. E Clarice tinha que morrer. Ela foi até lá para isso. Matar Clarice. E é isso que faria. Agarrou Clarice pelos braços, como se estivesse agarrando a si mesma. Então, sem pensar, deu o primeiro golpe, e ambas caíram no chão. Golpeou mais vezes e sentiu como se golpeasse a si mesma. Não importava. Nunca mais ela sofreria nas mãos de Clarice. Sentiu então a luz se esvair, enquanto o sangue de Clarice cobria o chão do quarto e seus olhos se fechavam. Havia conseguido. Clarice estava morta. E, como quem termina um espetáculo, viu as cortinas se fechando. Como alguém que atinge seu objetivo, sentiu-se descansar. Tudo havia finalmente terminado. Não mais sofreria. Nem ela, nem Clarice. E finalmente tudo escureceu e um silêncio eterno cobriu sua alma.

Começo

Sem pestanejar, sem pensar em arrependimentos, o escritor pôs-se a escrever. E o Mundo começou a ruir...